Quando morrer quero que as minhas cinzas se unam às raízes de uma árvore.
Não me revejo nos rituais fúnebres que se praticam, não me identifico com a música pesada e triste do órgão a ecoar nas paredes frias de uma igreja, servindo de som de fundo às palavras de uma religião que não me diz nada pela boca de um qualquer padre que nunca me conheceu, um conjunto de pessoas vestidas de preto ecoando em choros intermináveis enquanto balbuciam palavras clichês e vazias, para no fim acabar debaixo de uma lápide de um qualquer cemitério escuro e sombrio onde se vai aos domingos oferecer flores por auto-consolo do que não foi feito e dito em vida. Não.
Quando morrer não quero a lamentação de uma vida perdida, quero a celebração de uma vida que foi cheia e vivida, quero que façam um piquenique no meio da natureza, toalhas e mantas pelo chão, cestos de piquenique, bolinhos caseiros e um bom vinho tinto. Quero música, muita música, alegre e bonita. Quero que apareça quem quiser aparecer, que tragam a alma cheia, e vontade de celebrar a vida, o amor, a amizade, a arte, o bom que é viver a vida em vez de apenas perdurar nela. Que tragam os seus animais, que dancem, que riam, que conversem, que partilhem. Quanto a mim, que me plantem. Sim, que juntem as minhas cinzas às raízes de uma árvore, daquelas que ficam por centenas de anos, quero que lhe coloquem um baloiço pendurado num ramo, e um banco de madeira debaixo da sua sombra e uma bonita frase nele cravada "There is a light that never goes out". Assim, morrendo não deixaria de existir, apenas mudava a minha forma. Não seria este mundo muito mais bonito se no lugar de cemitérios existissem jardins?
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