Meu amor,
espero que estas linhas que te agora escrevo te encontrem de coração sossegado e sorriso no rosto.
Ao momento em que os teus olhos se debruçarem sobre estas palavras já terei partido, algures num grande navio frio e cinzento, com destino a um país distante onde terei de lutar numa guerra que não é minha, contra outros que, tal como eu, serão obrigados a lutar ao serviço de pátrias que entregam homens à guerra como se de carne para canhão se tratasse. Sabia que este dia haveria de chegar, chega para todos, o dia em que abdicaria de ser Homem para ser apenas soldado, um pequeno peão num jogo muito maior do que eu. Nunca vi glória na guerra. Esta doença que exalta os valores mais decadentes da humanidade, ganância, poder, dinheiro... Nunca haverá vencedores. Enquanto se desperdiçarem vidas a lutar por coisa nenhuma, todos perdem. Mas sabes amor, o que mais temo não é morrer em combate. Se morrer no meio da guerra, fico lá, acabou. Temo muito mais a morte da minha alma, que fique lá e eu regresse, vazio! Tenho testemunhado isso, os homens voltam da guerra e não são mais homens, são máquinas, regressam de olhar em branco, alma vazia, por lá deixam o coração e os sonhos, a esperança, a vida, entregam-nos às mãos da Morte com que se cruzam a todas as horas, ao sofrimento, à maldade, à dor. Sucumbem ao que vêem, ao que vivem, ao que fazem, ao que vêem fazer, e impotentes não têm outra solução que não deixar que a escuridão os preencha, para que não sintam mais nada. E quem os pode culpar? Está-nos no sangue, o instinto de sobrevivência, adaptar-nos às mais perversas das circunstâncias, de modo a que consigamos sobreviver. E não há outra maneira de sobreviver a uma guerra que não seja a de desligar em nós a humanidade, senão morreríamos de sofrimento. Mas esses são danos irreversíveis. Nunca nenhum soldado voltou com a mesma alma com que partiu. E eu tenho tanto medo, meu amor! E é por isso que tomei uma resolução, Eu partirei, mas a minha alma fica contigo. Pousada no teu colo, guardada entre os teus braços, assim ficará. Tudo o que sou, tudo o que sinto, viverá ao teu lado até ao meu regresso. Partirei somente com o meu corpo, e quando voltar devolver-ma-ás, sem qualquer dor. Deste modo sei que não a perderei por lá num campo de batalha já negra e desfeita por entre os corpos caídos, Ficará segura, nos braços da mulher que amo. E tudo o que por lá se passar, não fará parte de mim, não regressará comigo, serão apenas memórias que se dissiparão imediatamente a cada momento no universo como nuvens de fumo; não viverão comigo. Portanto meu amor, cuida bem da alma deste pobre homem que regressará como se nunca tivesse partido!
De uma pureza extrema! Maravilhosa esta carta de amor que nos inspira a amarmos e respeitarmos o nosso ser interior e a vida por inteiro!
ResponderEliminarO verdadeiro amor está no acto de nos amarmos e partilharmo-nos ao outro com a beleza de nunca nos perdermos e com a esperança que sempre nos guardem. <3