pegou nas folhas onde repousavam todas as linhas que alguma vez tinha escrito
e num grito de libertação lançou-as ao fogo
porquê?
porque o artista é um incendiário, um inconsequente.
rema no sentido contrário da corrente, da normalidade
vive em modo de exprimentação
na estabilidade morre a dúvida
e é na dúvida que nasce a arte
na inquietação
no desassossego
na destruição
o artista precisa de sentir a alma em alvoroço
do caos à sua volta
que espelha o seu espírito revolucionário
não deseja o belo, o imutável, o seguro
alimenta-se do que é cru, verdadeiro, instável
do tapete que lhe é puxado dos pés sempre que começa a criar raízes
porque a estabilidade é rotineira
e a rotina é letal
para a alma humana
é uma antítese da vida
o artista vive a arte
não a faz
entrega-se
sacrifica-se
funde-se nela
é ponte
é espelho
e é um meio de comunicação
um elo de ligação
tem de ser livre,
ilimitado
precisa de construir
para poder deitar abaixo o que foi construído
destruir
para renascer
cada vez mais ao encontro de si mesmo
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