Antes de tudo, pessoas. Com nomes e identidades; gostos, desejos e medos, com um coração a bater-lhes no peito e uma alma cheia. Como tal devemos-lhes desde logo o reconhecimento e respeito pela sua dignidade. De ser humano para ser humano, de indivíduo para indíviduo, somos feitos da mesma matéria. Quem parte do país onde nasceu, com uma vida inteira encolhida numa mochila às costas, para precorrer milhares de quilómetros em circunstâncias sub humanas, fá-lo porque sabe que não tem nada mais a perder. Fá-lo porque apesar de enfrentar o desconhecido sabe que para lá da fronteira nada poderá ser pior do que era do sítio onde partiu. Não se trata de ir em busca de dinheiro, um carro melhor, uma casa maior, trata-se ir à procura de uma vida que seja mais do que sobreviver. Trata-se de ir à procura de paz, liberdade, dignidade, segurança. Quem se sujeita a entrar num barco sobrelotado às centenas, com filhos, pais, irmãos, encolhidos, pisados, famintos, doentes, durante dias, semanas, meses, a fugir de fronteira em fronteira, fá-lo porque foge de guerras que não são suas, de bombas, de fome, de tortura, de trabalhos escravos, de cidades destruídas, de pobres condições de saúde e educação. de miséria, pessoas que se recusam a abdicar da sua dignidade! Partem por desespero e pela esperança de encontrar um lugar no mundo. Procuram um lar. Um país, uma nação, onde possam exercer o seu direito de viver. Onde possam recuperar a sua humanidade. Onde possam trabalhar e ser recompensados por isso, onde possam educar os seus filhos e cuidar dos seus pais, construir um lar seguro e estável. Tudo o que nós tomamos como bens e valores adquiridos.
É fácil julgar, é fácil não os ver, é fácil não sentir qualquer tipo de compaixão. É fácil fazê-lo enquanto são apenas milhares de rostos desfocados num ecrã de televisão, "migrantes". Mas são pessoas, tal como nós, pais, mães, filhos, avós, médicos, professores, engenheiros..., a reclamar de volta a sua humanidade.
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